Dezembro é um dos períodos mais bonitos do ano. E, em toda a Europa, os presépios vivos são uma tradição inesgotável. Reviver um tempo tão longínquo, mas ainda, tão intenso, é muito bom.
Neste post falarei sobre o presépio vivo da cidade de Giarratana, um "vilarejo" de serra, situado na província de Ragusa.
Vista do alto de Giarratana, província de Ragusa, Sicília
Foto retirada da internet
Muitas cidades revivem os presépios e tomam como cenário suas próprias casas, muitas habitadas ainda. A atmosfera noturna e a entrega dos participantes do presépio contagiam a todos.
Este ano, o 25° Presepe vivente di Giarratana, acontece nos dias 26, 28/12/14 e 01, 06/01/15, a partir das 18:00 e os ingressos são adquiridos a € 2,50 (preço único) e o acesso é feito em grupos de 50 (para ingressos comprados na hora) e 25 (para ingressos adquiridos previamente).
Chegada dos personagens ao cenário do presépio em Giarratana - 26/12/14
Este é o evento invernal mais importante do vilarejo e um dos mais importantes da região iblea.
Ambientado entre o fim de 1800 e o início de 1900, conta com 120 personagens em mais de 30 ambientes, recria fielmente a vida cotidiana e lavorativa daquele tempo, atentos a cada detalhe de vestimenta e "decoração" de cada ambiente.
Sob o manto da noite e com a iluminação exclusivamente feita por luminárias a petróleo e velas, se pode fazer uma viagem no tempo entre casebres e bodegas. Além do mais, durante o percurso encontramos algumas placas com dizeres que fazem referência àquele momento.
Agora daremos início ao passeio. Espero que gostem.
"Os pastores voltaram glorificando a Deus por tudo aquilo que tinham ouvido e visto."
Tentativa (frustrada) de fotografar a cidade do alto da serra, onde acontece a representação natalícia.
"O anjo Gabriel foi mandado por Deus a uma virgem chamada Maria."
"Representação de uma família comum, da época, em afazeres comuns em casa."
"Il fabbro" - o ferreiro, como é chamado em dialeto siciliano.
O ferreiro trabalhando sobre a bigorna, como se fazia naquele tempo.
Nesses lugares mais distantes da cidade, chamados de "campagna" (nossa zona rural), o sistema de educação, no formato de escola, chegou no início do séc. XIX. Na foto abaixo, em uma pequena sala, com alguns poucos alunos, uma "professorinha" ensina a lição. No entanto, muitas crianças da época não terminavam nem o 5° ano do ensino fundamental porque, normalmente, as meninas precisavam ajudar nos afazeres domésticos e cuidar dos irmãos menores e os meninos trabalhavam na lavoura.
Sala de aula rural italiana do início do séc. XIX.
Em todo vilarejo haviam famílias que produziam, manualmente, as pastas (variações ao spaghetti) para o consumo local.
A família que empasta (que faz pasta).
A pasta era produzida na sala de estar das casas. Ao centro, à frente da mesa, observamos duas estruturas em forma de "gaiola". Na verdade, são os antigos aquecedores da época. Se colocava carvão em brasa e a estrutura era de madeira para que pudessem ser transportados para todos os ambientes da casa.
Muitas casas eram compostas de dois compartimentos, sala e banheiro, no qual se faziam tudo, costuravam, cozinhavam, produziam a pasta e a parte superior "funcionava" como quarto.
A religiosidade estava fortemente presente no cotidiano de todos. Aqui, representada no quadro de parede, pendurado sobre o gaveteiro rústico confeccionado, certamente, no mesmo vilarejo.
Haviam famílias que produziam e forneciam a matéria prima para a produção da pasta. Na verdade, todo o funcionamento da vila era uma reação em cadeia. Tudo estava interligado.
Na imagem seguinte, outra família passa grãos pelo crivo, selecionando os melhores para serem usados por quem precisasse.
O crivo era pendurado no teto e, enquanto dois homens o balançavam num movimento pendular, as mulheres e crianças recolhiam, pesavam e já embalavam os grãos para venda local.
Lugar onde os grãos eram conservados antes de serem "crivados".
Uma casa transformada em "venda", "bodega", "mercearia" ou outro nome dado a um pequeno comércio local rural. Observe o braseiro sempre ao centro do ambiente.
"A putia" era o "boteco" da época.
O nome de uma das ruas que servem ao presépio vivo de Giarratana.
Continuando pelas ruas do vilarejo, as placas indicam as passagens da data natalícia. Neste ponto, observe o machado fincado no tronco usado para cortar a lenha que alimenta a pequena fogueira
"Te cumprimento, cheia de graça. Conceberais um filho, a quem darás à luz e o chamará Jesus."
Era muito comum (e ainda hoje aqui em Ragusa) encontrarmos quem vendesse calia (grão chamado ceci) que é o nosso grão de bico. O processo é muito interessante. O vendedor assa, em uma bacia de ferro o grão de bico junto com as cinzas do fogareiro e, fica muito gostoso porque torram, ficam sequinhas e torradíssimas.
Vendedor de calia.
Quando estão no ponto justo, o vendedor passa tudo no crivo (aquele à esquerda e amarelo em formato de cesto), recolhe as cinzas e repõe na panela para "re"assar novas cecis.
O grão de bico misturado às cinzas.
À medida em que os passantes se aproximam, o vendedor oferece ceci torradinhas e quentinhas. Deliciosas. Neste caso, ele não vende, oferece gratuitamente aos passantes.
As cinzas sendo misturadas aos grãos de bico.
A vida cotidiana de uma família em que as mulheres faziam a pasta (cavati).
Banca de venda de legumes e verduras produzidos nas hortas locais.
"Estou aqui, sou a serva do Senhor. Faça de mim aquilo que disse."
Outra "bancarella" de venda de verduras e legumes.
Casa em que se produzia a cera usada para a produção das velas.
À esquerda, embaixo, podemos ver as velas amarelas já prontas.
"Um decreto de César Augusto ordena que se fizesse um recenssiamento de toda a terra (latifúndios, propriamente ditos)."
Vista de cima de uma das casas do vilarejo.
Aqui funcionava a "padaria" do vilarejo, apesar de todas as mulheres, naquela época, fazerem o pão em casa.
"U falignami" - Em dialeto significa o marceneiro.
O marceneiro trabalhando com o seu filho.
Uma família se aquecendo diante da fogueira e fazendo a massa cavati.
As cadeiras (sedias) feitas em madeira e com o assento trançado em palha, usadas até hoje (temos várias na nossa casa de campagna) eram trabalhadas de modo muito cuidadoso.
"U sighiaru" - o sediario, que faz sedias (cadeiras em italiano).
Sabem o que é mais interessante? A valorização dos costumes é tão forte nos italianos que se pegarmos uma cadeira antiga dessas e pintarmos, se formos tentar vender, as pintadas terão menos valor que as "originais".
O sediario em seu lavoro.
A palha era uma materia prima muito presente em vários afazeres cotidianos e permanece até hoje. Os "cestos de palha" eram produzidos pela própria comunidade. As mulheres, por exemplo, não usam outro recipiente que não os "canestros" (cestos) para conservar a pasta pronta para cozinhar, até hoje.
"U canistruzu" - o que faz canestro...
... nosso conhecido cesto de palha. Aqui pai e filhos trabalhando na oficina de "canestri".
Todo vilarejo tinha o seu postinho de saúde e o médico é um personagem indispensável na vida rural daquele período.
Em dialeto "U dutturi" - o doutor.
O médico em seu ambulatório.
"Enquanto se encontravam naquele lugar... deu à luz seu filho primogênito."
"A putia ro vinu" (o boteco) era uma constante.
Observem à esquerda, no alto, o "quarto" do dono do lugar.
Aqui, funcionava uma "sartoria" (ateliê) com le sartae (costureiras e bordadeiras). Atrás, com um xale preto vemos a que estira (passa) as peças produzidas.
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Local público para lavagem de roupa.
As fontanas, conhecidas por nós como torneiras públicas (à extrema esquerda) existem até hoje com água potável e são utilizadas normalmente por quem queira matar a sede e, em lugares remotos, ainda são usadas para lavar roupa em praça pública.
Pertinho da fontana, os tachos (panelas de ferro) estavam sempre ao fogo com agua quente para a lavagem, principalmente, das roupas brancas.
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Local público para lavagem de roupa.
"Le lavandaie" - as lavadeiras.
Esta garotinha, com não mais do que 12 anos, lava a roupa "espancando" a peça com um pedaço grosso de madeira.
Rua que passa por cima da fontana.
Um dos costumes siciliano mais antigos e mantidos até a atualidade é a carroça decorada ou, em italiano, carretto siciliano. É colocado na cabeça do cavalo, um instrumento para puxar a carroça (desculpem, eu ano consigo lembrar o nome em português) que é todo decorado, assim como a própria carroça para transportar famílias rurais, também caracterizadas, em dias de festa.
A carroça é o barco amazônico, o ônibus pro trabalhador urbano, o caminhão pro caminhoneiro, o computador pro designer gráfico. A carroça faz parte do cotidiano social e lavorativo da população rural da ilha.
Carretto tipico siciliano. Imagem retirada da internet.
"U vardunaru" - o que faz a decoração para os cavalos das carroças sicilianas.
Até hoje, no período das férias (verão), muitas cidades ainda fazem desfile e concurso das carroças decoradas. As premiadas ficam expostas em praça pública para serem fotografadas. Esse costume é levado tão a sério que recebe patrocínio privado para a decoração, principalmente, feita em flores (que muitas vezes tem o custo mais alto que o próprio prêmio). São os equivalentes aos nossos "carros alegóricos".
"Um anjo disse aos pastores 'hoje nasceu um salvador que é Senhor Cristo" (aqui há um conflito de informação, já que Jesus se tornou Cristo após a crucificação. Entretanto, entremos no sentido da coisa.).
"U tularu" - o telario, o que tece a trama do tecido.
Mulheres e crianças no trabalho de tecelagem. Observem no ano em que aquela peça azul, ao fundo e à direita, foi tecido. 1929.
"U scarparu" - o sapateiro.
Observem os moldes usados pelo sapateiro pendurados na parede.
"U scanaturi" - as mulheres que faziam a massa para o pão, tinham a ajuda da "briula" e da "maida" que é essa base maciça de madeira em formato de mesa (não é mesa porque é móvel e portátil) e esse "braço" de madeira ...
... que, enquanto uma mulher vira a massa, a outra levanta e o abaixa a alavanca móvel para ajudar a amaciar o que será o pão.
"Encontrarão um bebê envolto em faixas que está acomodado em uma manjedoura."
A placa de frente em melhor visão para ser lida.
"U scupazzaru" - o que faz scopa (vassouras).
O senhor que fazia as vassouras em sua oficina.
"Andaram e encontraram Maria, José e o recém-nascido que estava na manjedoura."
Pastores em sua vigília noturna, naquele período.
Tenda em que dormiam os pastores quando estavam em área de pastoreio dos animais.
A fogueira era obrigatória nas noites frias.
E assim, chegamos ao objetivo do presépio vivo, a "grota" em que se encontra o menino Jesus.
Na gruta encontramos os reis magos, José e Maria contemplando o menino salvador.
A particularidade da vida cotidiana é, anualmente, representada pela população local que se dedica a representar um dos cenários sacros mais conhecidos da humanidade. Habitações rústicas, vestimenta humilde, o silêncio obrigatório dos "atores" para não quebrar a concentração e a aura de mais de 2000 atrás em toda a sua simplicidade, é realmente fantástica.
A natividade é pura contemplação no presépio de Giarratana.

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